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Virtualidades e redes

redes

Este vídeo é parte  do material produzido pelo  Mario Salimon  para o filme  “Hierarquia: conversas depois do fim de um mundo”. Foi gravado no Laboratório de cocriação da Escola de  Redes, em São Paulo, em janeiro de 2012.

Na entrevista falo sobre minha experiência trabalhando com redes no terceiro setor e também no governo. Na parte final,  faço uma digressão sobre questões relativas à virtualidade e à imaterialidade  da vida contemporânea e sobre a importância do design  de interfaces tecnológicas e como estas impactam nos processos  de interação.

Vivianne Amaral – Entrevistas-base do filme Hierarquia: conversas depois do fim de um mundo. from Mario Salimon on Vimeo.

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Mais que resistência, invenção

A Baia Hacker com o tempo se configura como um laboratório social, na exploração intensa da interação e do que ela pode produzir, ali, localmente, no microcosmos das redes de convivência que abrangem mais que Itu, pois vivemos num continuum comunicacional, um território virtual entre conectados. A Baia é um laboratório hacker, um projeto da Cria Corpo, empresas ( CriaSolo, Instituto Cidade Jardim, Usimetal, Solid Products  Sinapse, entre outros) e pessoas parceiras num programa da incubadora da Prefeitura de Itu.

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Foto: Daniela Noronha

O desafio é como podemos criar e sustentar um ambiente amigável, que acolha as pessoas e seus diferentes interesses, de forma que possa ancorar iniciativas econômicas e de aprendizagem que não sejam mediadas apenas pela sociabilidade de mercado e  da produtividade.

Muitas das pessoas que convivem lá têm passagens por organizações não governamentais, movimentos sociais, redes. Muitos são pequenos e micro empreendedores, com idade, variando de 20 a 60 anos. Pessoas cuja visão de negócios está relacionada à felicidade, saúde e bem comum e cujas atividades em grande parte podem ser enquadradas no que hoje se chama de economia criativa (comida, pintura, comunicação, fotografia, música, arte, criação, design…). Uma classe média bem brasileira, pouco dinheiro, pequenos negócios e muita colaboração entre as pessoas para viabilizar ideias e projetos.

Não é aquela turma das startups, do empreendedorismo de prêmios, que viaja pelo mundo, aparece nos TEDS.  Há muita potência, mas são pessoas comuns, produzindo a vida, em cidades interioranas, onde novas formas de viver e ganhar a vida precisam de nichos para se desenvolver, pois prevalece  um certo provincianismo.

Tudo isto ficou muito claro para mim com a realização do Sarau Hacker que reuniu a comunidade que frequenta e gira em torno do espaço da Baia. Lá,  saquei que uma das melhores coisa que uma política pública interessada em impulsionar a economia criativa pode fazer é garantir espaços (e se possível, equipamentos)  para que os pequenos e frágeis negócios se instalem e se desenvolvam. Neste espaços, sem ter que pagar aluguel e com alguma estrutura e gestão que respeite a autonomia e o bem comum, as pessoas podem ter a liberdade e a oportunidade de inventar, encontrar parceiros, aprender a empreender, errar e ser solidários.

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Assim como a Baia Hacker, pelo que vejo no Facebook, que é a rede social que frequento diariamente, há inúmeros espaços de convivência com este espírito acontecendo no Brasil.  Neles , passamos da resistência à invenção de novas formas de viver em sociedade. São experiências frágeis, experimentais, muitas vezes precárias.  São na maior parte das vezes invisíveis para as politicas públicas. Neles passamos da resistência à invenção de novas formas de viver em sociedade. São vitais para a sociedade brasileira.

Quando vamos começar?

tecnologia-na-educacao_01Hoje li um artigo da BBC sobre educadores brasileiros que foram à Finlândia conhecer o sistema educacional, “Oito coisas que aprendi com a educação na Finlândia”. O país é considerado pela OCDE – a entidade que aplica o Pisa – como “um dos líderes mundiais em performance acadêmica”, se destacando pela igualdade na educação, alta qualificação de professores e por constantemente repensar seu currículo escolar.

Os oito itens elencados como pequenas revoluções são aquelas medidas que se tornaram lugar comum, pelo menos em artigos, estudos e propostas sobre mudanças na educação. Destaco entre elas:

  • usar a metodologia de aprendizagem por projetos: uma estratégica didática que vem sendo recomendada há muito e é a base de muitas ações inovadoras atuais. Uma boa leitura sobre a metodologia é  “Liberdade para aprender”. do Carl Rogers;
  • mudar o sistema de avaliação. Se formos focar mais na aprendizagem do que na ensinagem temos que  trocar o sistema de avaliação por um menos acumulativo e mais formativo e que tenha a participação do aluno. Conheci o sistema que usa rubricas para a avaliação e considero que pode transformá-la numa experiência muito rica;
  • configurar as salas de aula de forma que a interação seja fluída e a criatividade estimulada: inúmeras tecnologias sociais mostram como fazer isto: cocoriação interativa, open space; world cafe; design things;
  • incorporar TIC no processo de aprendizagem, tornando a experiência da sala de aula mais próxima da vida cotidiana na sociedade conectada e aproveitando a riqueza de possibilidades que as ferramentas e dispositivos tecnológicos oferecem;
  • valorizar o professor cultural e monetariamente e oferecer  ao mesmo uma formação mais prática;
  • o professor como facilitador, mediador e cocriador e não apenas como transmissor de conteúdos;
  • ver o aluno como produtor e cocriador  e não como receptor e audiência passiva.

Se você costuma acompanhar os debates sobre a as mudanças que precisam ser feitas na educação, certamente já viu estas proposições. Sendo estas iniciativas praticamente um consenso, fico me perguntando porque as mudanças não acontecem e quando acontecem não saem da escala de projeto em uma escola. Considerando que os municípios têm relativa autonomia em relação a políticas educacionais, o que será que retarda a adoção de iniciativas como  as indicadas? Inclusive vários têm programas e centros de formação para professsores.

Será a coordenação pedagógica das secretarias municipais, serão as diretoras de escolas, a coordenação pedagógica das escolas, os professores, os coordenadores dos centros de formação? Onde o fluxo para mudança está bloqueado? Que tipo de compromisso com o passado impede  a atualização cultural da escola e da educação?

E se as bibliotecas fossem inteligentes?

Jason Griffey, criador do LibraryBox, participou recentemente do desafio da Knight Foundation sobre bibliotecas e é um dos vencedores.  O contexto do desafio foi a preocupação da Fundação com o futuro das bibliotecas,  já que elas têm sido “uma parte vital de nossas comunidades, durante séculos, como guardiões do conhecimento público, espaços de conexão humana, educadores para as próximas gerações de alunos”. Atentos à mudança dos hábitos em relação à leitura, bibliotecas  e livros, lançaram uma chamada com o objetivo de descobrir projetos que possibilitem levar ás bibliotecas (e seus serviços e valores) para o futuro: “Como podemos alavancar bibliotecas como uma plataforma para construir comunidades mais experientes?

Veja o vídeo da apresentação do projeto de Janson Griffey, na premiação

Knight News Challenge on Libraries Winners 6. Measure the Future from Knight Foundation on Vimeo.

Ampliando as possibilidades das bibliotecas com open hardware

A ideia apresentada por Jason foi desenvolver, implantar e treinar bibliotecários para criar e usar dispositivos de hardware abertos que permitam bibliotecas mais eficazes e eficientes. Ele considera que  as bibliotecas norte americanas já descobriram os benefícios do software de código aberto, mas não abraçaram totalmente o hardware de código aberto. Acredita  que o hardware aberto pode reimaginar a operação de bibliotecas. Um exemplo que apresenta de como as bibliotecas poderiam ser mais sensíveis às necessidades das comunidades que atendem, é a utilização de sensores que poderiam tornar uma biblioteca inteligente gerando informações aos bibliotecários . Sensores simples e baratos podem recolher dados sobre a construção de uso que atualmente são invisíveis.

Para o pesquisador, tornar explícito o que hoje é invisível,  permitirá bibliotecários tomarem decisões estratégicas para criarem experiências eficientes e eficazes para seus usuários.

CleverBox e  projeto GiFT

Achei a ideia de bibliotecas inteligentes maravilhosa e só reforçou meu entusiamo em relação a experiência que estamos tendo com o CleverBox, uma derivação do LibraryBox, e com projeto GiFT, que procura apresentar e disseminar a tecnologia no Brasil. Importante: há mais pessoa utilizando a tecnologia  por aqui, na maior parte das vezes em clusters de hackerismo. Nossa ideia é que seja utilizada em escolas, bibliotecas, centros culturais, praças, terminais rodoviários, de metrô, salas de espera.  Qualquer lugar onde pessoas estejam com aparelhos com wifi, pode ser vivido como espaço educador, inteligente e de compartilhamento de informação e conhecimento.

Penso que ainda não achamos o caminho para sensibilizar e envolver pessoas e instituições  que poderiam se beneficiar  muito com o dispositivo, que possibilita o compartilhamento de conteúdos digitais sem o uso da internet, via uma rede privada, de baixo custo.  Que é móvel e não depende de energia elétrica, pois pode ser usada com uma bateria fotovoltaica. Suponho que uma das razões do não envolvimento é que dirigentes das áreas da educação e da cultura e diretores e professores de escolas públicas, devido a pouca intimidade que têm com a cultura digital, código aberto, software livre e hackerismo, têm dificuldade para perceber os benefícios da tecnologia que possibilita a criação e manutenção de bibliotecas digitais sem depender da internet.

Procurando dar visibilidade ao dispositivo, inscrevemos o projeto GiFT no desafio Tecnologia é ponte , uma chamada do Instituto Claro/Embratel e Ashoka que procura identificar projetos  que tragam tecnologias para a  área da Educação. A noticia boa é que estamos entre os finalistas. 🙂

Além disso, continuamos fazendo intervenções com o projeto GiFT em todas as oportunidades. E no momento estamos com o projeto ancorado na Baia Hacker, em Itu-SP,  um laboratório temporário de experiências sensíveis.

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Infobox

O que é

Um serviço para compartilhar conteúdos digitais multimídia em rede wifi  sem acessar a internet.

O Infobox é uma combinação de um roteador 3G portátil DLink MR 3020 (equipamento que se usa para gerar uma rede wifi local) transformado em servidor, um software e uma unidade de armazenamento USB (pen drive), que gera uma rede wifi privativa local. O servidor agindo como um portal cativo, sem acesso à internet, disponibiliza conteúdos digitalizados em quatro formatos: texto, vídeo, imagem e áudio, que ficam armazenados no pen drive. Qualquer usuário conectado à rede pode acessar e baixar o conteúdo.

Foi criado por Janson Griffey, com o nome LibraryBox e vem sendo apropriado, usado e reinventado em varios lugares do mundo. Veja

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Conjunto CleverBox: roteador, pen drive e bateria solar.

Mobilidade e fonte de energia

O dispositivo é móvel, podendo ser facilmente transportado e pode ser alimentado tanto por bateria solar quanto por energia elétrica.

Memória da rede

A capacidade de armazenamento do pen drive determina o tamanho da memória da rede gerada. Podem ser criados vários pen drives para um mesmo dispositivo, facilitando assim a organização de conteúdos para fins diversos: bibliotecas temáticas, documentos, formulários, conteúdos para cursos, etc.

Como acessar e baixar o conteúdo

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Home da rede gerada , com menu dos diretórios, relação de conteúdos baixados e chat.

Para acessar o conteúdo digitalizado basta se conectar à rede pelo wifi do seu dispositivo, abrir seu browser e navegar pelo site. Você pode pesquisar os conteúdos organizados por formato (texto, vídeo, imagem, áudio) e por pastas, baixando para seu equipamento (smartfone, tablet, computador, notebook) os arquivos de seu interesse. O requisito é que ele tenha wifi.

Além dos diretórios de conteúdos, o portal oferece um chat que pode ser utilizado em tempo real pelas pessoas que estão no alcance da rede e conectados à mesma. Nenhum dado pessoal é solicitado, preservando a privacidade dos usuários. A rede também é aberta e sem senha.

Personalização

O layout da home pode ser personalizado com o nome da instituição, logo e informações que desejarem divulgar.

Utilidades

O dispositivo pode ser utilizado como suporte para compartilhamento de conteúdos digitais e interação em todas atividades em que for necessário transportar e compartilhar documentos digitais e não se tenha acesso à internet.

Por exemplo:
– Em projetos educativos como biblioteca de conteúdos em diversos formatos.
– Em cursos e oficina como biblioteca de textos, testes e registro de atividades.
– Em situações de emergência com documentos e orientações específicas. com o benefício do chat para interação das pessoas que estiverem trabalhando na emegência .
– Em trabalhos de campo.
– Em palestras para compartilhar material apresentado e de referência.
– Em reuniões para compartilhar documentos e materiais em vários formatos.
– Como biblioteca digital.
– Em salas de espera com material informativo e de entretenimento.
– Em intervenções nos espaços urbanos e rurais.
– Em exposições culturais.

Invente outra…

Apresentação1

Dos textos tipográficos ao hipertexto: a desigualdade de acesso ainda é problema na educação brasileira*

Um dos grandes desafios da escola é, sem dúvida, acompanhar as mudanças culturais. Na verdade, a expressão “acompanhar” não expõem a natureza do desafio que está colocado, pois não posiciona estes ambientes de formação na situação de protagonismo que poderiam ter na sociedade em relação à aprendizagem, desenvolvimento cultural e mudança social.

O texto “O desamparo da escola pública” relativo aos resultados do IDEB mostra o descompasso da escola com as demandas sociais e ressalta a questão da modernização e das novas tecnologias: “…a escola pública custa a ser modernizada e a implementar as novas tecnologias do ensino. No todo, ela mantém-se antiquada, desinteressante para o aluno e desamparada pelo poder público”. Este é o quadro geral, apesar de haver alguns projetos e iniciativas que mostram que seria possível avançar.

O problema da ineficiência das práticas de leitura e escrita na escola pública são anteriores ao surgimento do digital e possivelmente foi agravado pelas novas tecnologias, que exigem uma restruturação tecnológica dos ambientes e aprendizagens especializadas dos professores. O estudo “Avaliação das bibliotecas escolares do Brasil” destaca, como uma das evidências da pesquisa realizada, a precariedade da modernização tecnológica da maioria das escolas, onde na maioria das vezes, professores e alunos não tem acesso à internet. O estudo chama a atenção para situação de descompasso entre uma realidade marcada pelas inovações tecnológicas, que exigem atualizações frequentes tanto de equipamentos como de conhecimento e uma outra realidade, aquela da maioria das escolas, onde grande parte dos alunos ainda não se “apropriou inteiramente do código da escrita e da leitura”.

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A matéria do jornal Estado de São Paulo, refere-se a um projeto do FNDE/MEC com a Amazon para disponibilizar livros didáticos digitalizados para os professores do ensino médio da escola pública, que desde 2013 vêm recebendo tablets do Governo Federal. É uma medida muito positiva, pois para que os professores se sintam à vontade para lidar com o digital, precisam utilizá-lo e integrá-lo as suas práticas de aprendizagem pessoal.

Tecnologias digitais na escola pública

Não temos ideia de quando as tecnologias chegarão de forma massiva (como equipamento, serviço de conexão e com metodologias adequadas) aos alunos das escolas públicas no ambiente escolar, mas sabemos que, no cotidiano, estas crianças e jovens, como qualquer um de nós, vivem imersas num mundo de informações e conteúdos cada vez mais digitalizados e de relações constantemente mediadas pelas tecnologias de comunicação e interação em espaços sociais virtualizados. É possível que o período em que passam na escola, em sala de aula, seja o tempo em que estão mais desconectadas e que sejam menos afetadas pela virtualização tecnológica. Quando há internet nas escolas públicas, muitas vezes ela não é livre no ambiente escolar, normalmente está restrita aos espaços administrativos e ao laboratório de informática. Os celulares são proibidos. O ecossistema comunicativo das escolas públicas não é conectado nem conectivo, em grande parte.

De todos os elementos que compõem a problemática da tecnologia nas escolas, as crianças parecem ser os melhores situados para aproveitarem as oportunidades, pois como mostrou o vídeo “O buraco no muro”, havendo oportunidade de acesso e liberdade, a aprendizagem flui com facilidade.


É possível que o descompasso entre a leitura do mundo mediada pelas tecnologias digitais com todas suas características de fluidez (não linear, autonomia nos roteiros de descoberta/navegação, hipermidiática) cujo exercício é social e acontece naturalmente nos processos de interação virtual e a leitura de conteúdos pré-definidos e apresentados por um professor, numa sala de aula, diante de um quadro negro, numa situação disciplinar, seja um dos fatores que torna a escola e a sala de tão entediante atualmente, para o professor e para ao aluno.

No curso “Tecnologias na Aprendizagem/SENAC EAD”, estamos tendo contato com metodologias, como os projetos educativos e a Educomunicação, que são estratégias que poderão renovar a escola, mas é preciso que os professores e os dirigentes educacionais da educação pública, em atividade, sejam permeáveis a estas e outras novas formas de ensino-aprendizagem, abandonando a abordagem bancária e fordista da educação.

Não acontecendo esta permeabilidade da escola pública e a ampliação do grau de experimentação em relação ao ensino-aprendizagem, com incorporação das descobertas da neurociência sobre aprendizagem e cognição, o uso intensivo das tecnologias digitais e a adoção das novas abordagens pedagógicas, a desigualdade no país tenderá a aumentar.

Desigualdade de oportunidades

Segmentos sociais que têm acesso à escola privada e aos ambientes educativos não formais, onde as didáticas focam na liberdade, estímulo à criatividade, experimentação e autonomia, produção colaborativa, protagonismo e empreendedorismo, e têm acesso direto às tecnologias digitais, estarão melhores preparados para acessar as oportunidades de trabalho e colocar-se nos mercados.

O capitalismo informacional tem oportunidades para os que tem domínio da comunicação e desenvolvimento de uma inteligência cada vez mais conectiva e conectada, habilidades sociais para a colaboração e interação intensiva, capacidade de lidar criticamente com os novos meios, além da competência para organizar a torrente de informação que é produzida.

Os dois projetos que foram apresentados como referência para a reflexão (Devorador de livros e Fábrica de poesia), são muito estimulantes para o desenvolvimento da leitura e da escrita. Mas os dois necessitam que a internet esteja disponível na escola e o “Devorador de livros” oferece uma pequena amostra de uso livre, mas é pago. Como eles, há diversos sites, aplicativos e projetos digitais muito estimulantes e apropriados para a exploração e produção de hipertextos. No entanto, o acesso não é universal para a camada estudantil.

Em relação as mudanças nas práticas de leitura e escrita, desde o advento das tecnologias digitais, com o computador pessoal e posteriormente com a Web 2.0, vivemos realmente uma revolução que impacta várias dimensões pessoais e sociais: é cognitiva, amplia e sustenta redes de interação e ecossistemas comunicativos polifônicos. Saímos de um mundo ordenado tipograficamente, lógico, linear, hipotético, dedutivo e passamos para um mundo audiovisual e de sintaxes híbridas, com predominância do sensorial e da percepção. Os códigos são híbridos. A intuição, a afetividade e a imaginação são ativadas, conformando novas formas de inteligências, de subjetividade e de leituras de mundos. São muitos os recursos tecnológicos, o volume disponível de dados, informação e conhecimento é único. A possibilidade de produzir e distribuir de forma autônoma, de expressar-se em textos de variados formatos e em diversificados suportes não tem comparação na história humana.

Hibridismo é um dos conceitos que define nossa época. Desde as técnicas de produção que se servem da bricolagem, da recombinação e da exaptação do que existe nos mundos em que estamos imersos e nos quais interagimos, até às práticas didáticas, tudo é marcado pela mistura, pela mestiçagem. Por exemplo, em nosso curso, que é voltado ao estudo do uso de tecnologias na aprendizagem, as habilidades de leitura tipográfica, a leitura hipertextual, e a escrita linear são igualmente mobilizadas.

Assim, tudo convive em nossas práticas: o mundo tipográfico e a rede de hipertextos, disponíveis para elaboração do conhecimento. De alguma forma, é fabuloso. Lembra um desenho de Escher, lúdico, com muitos imbricamentos e caminhos. Mas, como educadora, não consigo deixar de pensar nos contextos em que as oportunidades anunciadas se atualizam e no desafio de transformar alunos de escolas públicas em interagentes imersos no ciberespaço.

* Texto produzido para a disciplina Produção coletiva de textos impressos e digitais, no curso Tecnologias na aprendizagem / SENAC EAD.

Impacto das mudanças tecnológicas na educação

O grande desafio é não naufragar no volume de informações, na rapidez do fluxo e na ilusão da necessidade de inovação tecnológica permanente, como se esta fosse uma necessidade humana e não uma necessidade do sistema capitalista, naturalizada culturalmente. As análises das tendências que relacionam tecnologia com educação/instrução podem ser abordadas como epistemes relacionados a dispositivos do capitalismo imaterial/cognitivo e outros. É importante, fundamental, e diria que urgente,  ser crítico em relação à inovação.

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Uma tendência que é crescente, mas não vi nos artigos indicados pelo curso* em relação ao tema, é a desescolarização, inspirada em pensadores como Ivan Illich e vários outros. Este movimento tem crescido em clusters de classe média, conectadas e que vivem na área de influência das grandes metrópoles. Ou a criação de novo tipos de escolas, como a experiência que está sendo realizada em Cotia, região metropolitana de São Paulo, inspirada na escola da Vila, de Portugal e com a assessoria do educador José Pacheco.

Uma característica atual das conversas sobre a educação é uma unânime crítica à escola como instituição que detêm o conhecimento na sociedade. Esta crise de autoridade está diretamente relacionada ao avanço das tecnologias de interação e comunicação e sua popularização, que possibilitam diariamente a milhões de pessoas no mundo todo, a aprendizagem autodidata e alterdidata (aprender com o outro) sem a mediação direta das instituições de ensino e professores.

A WEB 2.0 e a conectividade intensiva, a interação cada vez mais distribuída das pessoas, o conceito de conhecimento aberto e a ideologia não proprietária estão causando profunda mudança nas formas de convivência e de produção de bens materiais e imateriais em todas as sociedades do mundo e as instituições de educação/instrução também terão que se adaptar às novas configurações culturais e econômicas. No entanto, é possível que as formas conservadoras de ensino não desapareçam totalmente e viveremos em mundos cada vez mais híbridos em termos culturais e tecnológicos. O caráter híbrido dos fenômenos culturais; a recombinação e a exaptação como técnicas de produção; a mobilidade das pessoas e o compartilhamento obsessivo já são características do presente.

No campo da Educação já estamos vivendo sob o impacto de muitas mudanças. Em relação a aprendizagem cada vez mais online, teremos que avançar bastante na percepção da influência do design de interface e como ele configura a interação das pessoas, para que os fluxos sejam cada vez mais desobstruídos. As tutorias e mediações de aprendizagem terão que abandonar práticas de comando-controle e de transmissão de conteúdo e avançar no conhecimento da fenomenologia da interação, conforme os conhecimentos gerados na nova ciência de redes. Por exemplo, o conectivismo já é uma teoria pedagógica que pensa  a aprendizagem em dinâmicas de interação.

Um grande desafio que será enfrentado é o movimento de não propriedade do conhecimento, que afetará a indústria da educação, como afetou a indústria de música e a do jornalismo. Está em curso a necessidade de invenção de uma nova economia para a Educação.

Os MOOCs (Massive Open Online Course) são uma iniciativa ainda imatura. O alto índice de desistência é um sintoma que denuncia que há vários problemas nos modelos que vêm sendo implantados, mas são laboratórios para pensarmos e experimentarmos sobre ensino/aprendizagem online. Muito do  novo paradigma dos negócios educacionais está sendo desenhado nestes experimentos.

A questão da aprendizagem analítica, inspirada no uso das análises de dados e métricas sobre consumidores, com origem na área de marketing, tem a limitação genética de ser uma abordagem quantitativa, que pode contribuir, mas sempre será complementar às abordagens que tratem da complexidade do processo de aprendizagem. As instituições que reduzirem o aprendiz a um consumidor ou cliente não vão liderar.

Vivemos num mundo onde muitos objetos, ambientes e interações podem promover uma situação de aprendizagem. Aplicativos e ferramentas variados e acessíveis possibilitam apropriações e intervenções sobre a realidade e afetam nossa forma de viver o cotidiano e as leituras que fazemos dos mundos em que circulamos. A mobilidade é um dos fatores mais provocadores, pois causa desterritorialização nos coloca em contato com experiências  culturais diversas e, além disso,  torna as relações e os vínculos com pessoas e lugares muito instáveis, gerando novos tipos de sociabilidade.

O papel do professor será cada vez mais a curadoria de roteiros para aprendizagem e a configuração de ambientes de aprendizagem que estimulem a criatividade, a colaboração e a cooperação, o protagonismo e o senso de comunidade.

É importante que nos perguntemos, diante das teorias pedagógicas e das tecnologias, que conceitos de ser humano e de sociedade estão implícitos nas verdades que sustentam. Penso que esta é uma boa pergunta para orientar educadores no fluxo das mudanças.

Um tipo de ambiente de aprendizagem e convivência que pode ensinar muito sobre as tendências da educação no século XXI é o laboratório Hacker. Nestes espaços de hackerismo há uma prática intensiva de cooperação, colaboração, uso comum de recursos, responsabilidade distribuída, espírito de comunidade, compartilhamento de conhecimento e aprendizagem permanente. São plataformas sociais e culturais onde muito do que estamos investigando já está acontecendo.

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* Texto produzido como conclusão do trabalho individual na disciplina Espaços educativos e suas mobilidades / Curso Tecnologias na Aprendizagem /SENAC EAD. Junho 2014