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Virtualidades e redes

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Este vídeo é parte  do material produzido pelo  Mario Salimon  para o filme  “Hierarquia: conversas depois do fim de um mundo”. Foi gravado no Laboratório de cocriação da Escola de  Redes, em São Paulo, em janeiro de 2012.

Na entrevista falo sobre minha experiência trabalhando com redes no terceiro setor e também no governo. Na parte final,  faço uma digressão sobre questões relativas à virtualidade e à imaterialidade  da vida contemporânea e sobre a importância do design  de interfaces tecnológicas e como estas impactam nos processos  de interação.

Vivianne Amaral – Entrevistas-base do filme Hierarquia: conversas depois do fim de um mundo. from Mario Salimon on Vimeo.

Impacto das mudanças tecnológicas na educação

O grande desafio é não naufragar no volume de informações, na rapidez do fluxo e na ilusão da necessidade de inovação tecnológica permanente, como se esta fosse uma necessidade humana e não uma necessidade do sistema capitalista, naturalizada culturalmente. As análises das tendências que relacionam tecnologia com educação/instrução podem ser abordadas como epistemes relacionados a dispositivos do capitalismo imaterial/cognitivo e outros. É importante, fundamental, e diria que urgente,  ser crítico em relação à inovação.

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Uma tendência que é crescente, mas não vi nos artigos indicados pelo curso* em relação ao tema, é a desescolarização, inspirada em pensadores como Ivan Illich e vários outros. Este movimento tem crescido em clusters de classe média, conectadas e que vivem na área de influência das grandes metrópoles. Ou a criação de novo tipos de escolas, como a experiência que está sendo realizada em Cotia, região metropolitana de São Paulo, inspirada na escola da Vila, de Portugal e com a assessoria do educador José Pacheco.

Uma característica atual das conversas sobre a educação é uma unânime crítica à escola como instituição que detêm o conhecimento na sociedade. Esta crise de autoridade está diretamente relacionada ao avanço das tecnologias de interação e comunicação e sua popularização, que possibilitam diariamente a milhões de pessoas no mundo todo, a aprendizagem autodidata e alterdidata (aprender com o outro) sem a mediação direta das instituições de ensino e professores.

A WEB 2.0 e a conectividade intensiva, a interação cada vez mais distribuída das pessoas, o conceito de conhecimento aberto e a ideologia não proprietária estão causando profunda mudança nas formas de convivência e de produção de bens materiais e imateriais em todas as sociedades do mundo e as instituições de educação/instrução também terão que se adaptar às novas configurações culturais e econômicas. No entanto, é possível que as formas conservadoras de ensino não desapareçam totalmente e viveremos em mundos cada vez mais híbridos em termos culturais e tecnológicos. O caráter híbrido dos fenômenos culturais; a recombinação e a exaptação como técnicas de produção; a mobilidade das pessoas e o compartilhamento obsessivo já são características do presente.

No campo da Educação já estamos vivendo sob o impacto de muitas mudanças. Em relação a aprendizagem cada vez mais online, teremos que avançar bastante na percepção da influência do design de interface e como ele configura a interação das pessoas, para que os fluxos sejam cada vez mais desobstruídos. As tutorias e mediações de aprendizagem terão que abandonar práticas de comando-controle e de transmissão de conteúdo e avançar no conhecimento da fenomenologia da interação, conforme os conhecimentos gerados na nova ciência de redes. Por exemplo, o conectivismo já é uma teoria pedagógica que pensa  a aprendizagem em dinâmicas de interação.

Um grande desafio que será enfrentado é o movimento de não propriedade do conhecimento, que afetará a indústria da educação, como afetou a indústria de música e a do jornalismo. Está em curso a necessidade de invenção de uma nova economia para a Educação.

Os MOOCs (Massive Open Online Course) são uma iniciativa ainda imatura. O alto índice de desistência é um sintoma que denuncia que há vários problemas nos modelos que vêm sendo implantados, mas são laboratórios para pensarmos e experimentarmos sobre ensino/aprendizagem online. Muito do  novo paradigma dos negócios educacionais está sendo desenhado nestes experimentos.

A questão da aprendizagem analítica, inspirada no uso das análises de dados e métricas sobre consumidores, com origem na área de marketing, tem a limitação genética de ser uma abordagem quantitativa, que pode contribuir, mas sempre será complementar às abordagens que tratem da complexidade do processo de aprendizagem. As instituições que reduzirem o aprendiz a um consumidor ou cliente não vão liderar.

Vivemos num mundo onde muitos objetos, ambientes e interações podem promover uma situação de aprendizagem. Aplicativos e ferramentas variados e acessíveis possibilitam apropriações e intervenções sobre a realidade e afetam nossa forma de viver o cotidiano e as leituras que fazemos dos mundos em que circulamos. A mobilidade é um dos fatores mais provocadores, pois causa desterritorialização nos coloca em contato com experiências  culturais diversas e, além disso,  torna as relações e os vínculos com pessoas e lugares muito instáveis, gerando novos tipos de sociabilidade.

O papel do professor será cada vez mais a curadoria de roteiros para aprendizagem e a configuração de ambientes de aprendizagem que estimulem a criatividade, a colaboração e a cooperação, o protagonismo e o senso de comunidade.

É importante que nos perguntemos, diante das teorias pedagógicas e das tecnologias, que conceitos de ser humano e de sociedade estão implícitos nas verdades que sustentam. Penso que esta é uma boa pergunta para orientar educadores no fluxo das mudanças.

Um tipo de ambiente de aprendizagem e convivência que pode ensinar muito sobre as tendências da educação no século XXI é o laboratório Hacker. Nestes espaços de hackerismo há uma prática intensiva de cooperação, colaboração, uso comum de recursos, responsabilidade distribuída, espírito de comunidade, compartilhamento de conhecimento e aprendizagem permanente. São plataformas sociais e culturais onde muito do que estamos investigando já está acontecendo.

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* Texto produzido como conclusão do trabalho individual na disciplina Espaços educativos e suas mobilidades / Curso Tecnologias na Aprendizagem /SENAC EAD. Junho 2014

moocs e distância transacional

Desde as teorias de Piaget e principalmente de Vigotski, o aspecto interativo e o valor da interação com os outros no processo de aprendizagem tornaram-se aspectos centrais nas propostas pedagógicas e instrucionais. No entanto, apesar da tese aceita que “o processo de aprendizagem é definido pelo ambiente de aprendizagem”, e do reconhecimento da interação social como elemento essencial na construção do conhecimento, os ambientes de e-learning ainda não conseguiram, em sua maioria, explorar amplamente esta abordagem em seus projetos.

Para fazer a análise solicitada numa disciplina do curso “Tecnologias na aprendizagem” (EAD SENAC) escolhi dois recursos – Fórum e Anotações –  de  um sistema brasileiro de oferta de cursos no estilo MOOCs, o Veduca. A situação de aprendizagem, podemos dizer “a aula”, consiste basicamente em assistir vídeos.

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Ambiente de aprendizagem do Veduca.

Fórum

O recurso mais interativo existente, o Fórum, apresenta algumas características que prejudicam, mas não obstruem o fluxo da interação. Os problemas identificados ali ocorrem em muitos dos fóruns de AVAs, principalmente porque não é dada a devida importância ao impacto negativo da configuração do ambiente, que é feita também pelo design de interface e não só pelas relações entre as pessoas, interação com o conteúdo e regras de uso. Considerando que a interação mútua ocorre como um fluxo (que pode ser síncrono ou assíncrono devido a sensação de continuum comunicacional que a conectividade a interatividade criam) detalhes como os identificados podem desestimular a comunicação e diminuir a interatividade, já que impactam na interação.

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Fórum.

Pelo design da interface, a área do Fórum ficou estreita na tela. As postagens ficam compridas e estreitas, o que não é tão confortável para leitura. Não é permitida a edição do texto depois de postado, o que é limitante do ponto de vista da clareza da comunicação. Como a interação e a colaboração, são muitas vezes um impulso, e é comum cometermos erros de digitação, gramática e sintaxe, ficar com o texto errado pode ser constrangedor e limitante. A opção de escrever num doc para poder revisar e depois colocar no fórum, corta o fluxo da interação, sua naturalidade. Não poder apagar a postagem é outro fator limitante e restringe a liberdade do usuário sobre sua produção.

Em relação à posição do Fórum no ambiente, se fosse colocado abaixo do vídeo, um espaço que está vazio,  ele seria mais confortável e estimularia a interação com mais força. Nesta posição a leitura das postagens ficaria mais confortável.

As postagens feitas não aparecem na caixa de entrada de seu e-mail. Não sei se quando há resposta ao tópico que você postou elas aparecem, pois ninguém respondeu ainda à postagem que fiz. Aparecer poderia ser uma opção de configuração, pois isso facilitaria manter a interação e atrair o estudante para a plataforma novamente.

Não há a possibilidade de fazermos “amigos” nem de compartilhar as anotações, o que poderia tornar a aprendizagem mais social e interativa. A configuração não possibilita que se formem comunidades de aprendizagem, não é possível a percepção de se estar pertencendo a uma comunidade. É possível compartilhar no Facebook e no Twitter, mas isso leva a interação para fora do ambiente da plataforma educativa.

Anotações

anotaçoes

Anotações.

O recurso Anotações facilita a aprendizagem do conteúdo por meio de registro de notas, mas não é propriamente interativo. Se fosse possível compartilhar as anotações com as outras pessoas que estão fazendo  o curso, poderia ser um bom apoio e pretexto para a interação. As anotações poderiam ser um importante disparador de transações para construção social de conhecimento. Mas o recurso não  permite compartilhamento nem exportação. Além disso, só é visível e acessado quando não estamos com a tela cheia,o que diminui seu valor como suporte ao aprendizado. Se é possível, não consegui descobrir como.

Reflexão

Como num MOOC não há colegas no sentido tradicional da expressão, nem moderador/facilitador e , no caso analisado, não podemos compartilhar conteúdo produzido pessoalmente, a distância transacional é enorme.  Ela é uma  distância pedagógica, cognitiva e social que existe entre professor e aluno  e influencia a eficácia e eficiência da aprendizagem. Como Michael G.Moore demonstrou, quanto maior a distância transacional maior a necessidade de que o aluno seja um sujeito autônomo.

Considerando que a autonomia como atitude é uma novidade cultural na história da Educação, que durante muito tempo valorizou a obediência e a aprendizagem passiva como comportamentos positivos, é possível que esteja aqui, uma das explicações para as dificuldades que os MOOCs enfrentam como sistema de aprendizagem, pois são idealizados para um tipo ideal de estudante que ainda está se constituindo culturalmente: o aluno autônomo, aquele que, segundo Robert Boyd “pode abordar assuntos diretamente sem ter adulto participando de um conjunto de papeis de mediação entre o aluno e o conteúdo”.