Arquivo mensal: novembro 2015

Aprendizagem significativa nas escolas ocupadas em São Paulo

No texto “Quando vamos começar?” indago em que nodos e conexões do ecossistema da escola estariam os bloqueadores de fluxo da mudança tão desejada no sistema educacional fundamental brasileiro.

Nos últimos dias, nas mídias sociais e imprensa, as notícias e informações sobre a ocupação das escolas em São Paulo têm mostrado quem tem a potência de libertar o fluxo: os alunos do ensino médio organizados nas ocupações têm colocado em prática muito do que se chama nas teorias pedagógicas de aprendizagem por projeto (metodologia de aprendizagem por projetos) e aprendizagem experiencial ou significativa.

Imagino  (e espero) que tudo isto esteja sendo realizado em parceria com professores e, em muitos casos, apoiado por pais e mães. Li matérias falando do apoio da comunidade de entorno das escolas e convites à qualquer cidadão para que venha até a escola  e contribua  de alguma forma.

escoals

Carl Rogers, no livro Liberdade para aprender, apresenta relatos de três experiências de aprendizagem experiencial: no sexto ano do ensino fundamental, num curso de graduação e numa pós-graduação. O livro vale ser lido por todo educador que está insatisfeito com a frustração cotidiana das salas de aulas atuais. Ele mostra como é possível fazer algo significativo mesmo em uma estrutura formal de ensino como a escola fundamental e o ensino superior. Neste livro ele define o que é a aprendizagem experimental ou significativa:

Tem ela a qualidade de um envolvimento pessoal – a pessoa como um todo, tanto sob o aspecto sensível quanto sob o aspecto cognitivo, inclui-se no fato da aprendizagem. Ela é auto iniciada. Mesmo quando o primeiro impulso ou o estímulo vêm de fora, o senso da descoberta, do alcançar, do compreender vem de dentro. É penetrante. Suscita modificação no comportamento, nas atitudes, talvez mesmo na personalidade do educando. É avaliada pelo educando. Este sabe se está indo ao encontro das suas necessidades, em direção ao que quer saber, se a aprendizagem projeta luz sobre a sombria área da ignorância da qual ele tem experiência. O locus da avaliação, pode-se dizer, reside, afinal no educando. O significado é a sua essência. Quando se verifica a aprendizagem o elemento de significação desenvolve-se, para o educando, dentro da sua experiência como um todo. (ROGERS, 1978, p. 21)

Pelo que tenho lido é este o fenômeno em curso nas escolas ocupadas.

Tico Santa Cruz, vocalista da banda de rock Detonautas em vista à EE Caetano de Campos, em São Paulo: É uma atitude que vale muito a pena, serve para quebrar um paradigma no Brasil de que os alunos não têm interesse pela escola e a comunidade não está associada a uma leitura mais dinâmica e apropriada da educação. O que está acontecendo em São Paulo é um movimento histórico que vai certamente repercutir no Brasil inteiro e servir para que outras escolas possam seguir de exemplo e que a gente possa de fato fazer algo pela educação pública do país.” (http://goo.gl/Dz1PbT)

Nas escolas ocupadas, os jovens criaram uma rotina de atividades. Eles se dividem em grupos para fazer a limpeza, garantir a alimentação, manter a segurança e atender às demandas da imprensa. Além disso, são programadas palestras, aulas abertas, debates e exibições de filmes. (http://goo.gl/R3VYKG)

Na Escola Comendador Miguel Maluhy, por exemplo, foram realizados saraus literários, oficinas de teatro e até o ensaio de bateria de uma pequena escola de samba da comunidade do bairro. Nessa unidade, ontem, os alunos estavam envolvidos num mutirão para pintar a quadra e paredes que estavam com a tinta descascada. Já na João Kopke, os manifestantes distribuíram comida para moradores de rua da vizinha Cracolândia. “A ocupação me deu uma visão social que eu não tinha”, disse Talhia Macedo, 17. (http://goo.gl/ubqLWz)

O Diário de São Paulo fez uma matéria  que vale a pena ler, entrevistando os alunos manifestantes de quatro escolas das zonas Sul, Oeste e Centro. Em geral, são adolescentes de classe média ou baixa, filhos de diaristas, motoristas, porteiros de prédio ou trabalhadores autônomos: Veja quem está por trás da ocupação das escolas

Uma iniciativa muito interessante, tendo em vista as ações truculentas do governo do Estado é a plataforma De guarda pelas escolas, em que você se inscreve e passa a ser um guardião de um escola, sendo avisado por SMS de qualquer intervenção violenta.

Segundo o G1, o número de escolas ocupadas em São Paulo na sexta feira, dia 27 , era 182 para a Secretaria Estadual de Educação  e 193 para o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp). As ocupações ocorrem em protesto contra a reestruturação da rede de ensino do governo Geraldo Alckmin e completam 18 dias nesta sexta.

Independentemente do que possa acontecer nos próximos dias e do impacto das ocupações no sistema escolar, a experiênia de liberdade, responsabilidade e a descoberta do que é possivel fazer juntos, que as pessoas que estão envolvidas em cada escola estão vivendo, é transformadora e educativa. Pela minha experiência de vida, viver coisas assim, ilumina a existência e cria um referência que nos diz que coisas muito boas são possíveis.

“Aprender é um fluxo contínuo, ao invés de um reservatório represado.”

George Siemens