Arquivo mensal: outubro 2014

Dos textos tipográficos ao hipertexto: a desigualdade de acesso ainda é problema na educação brasileira*

Um dos grandes desafios da escola é, sem dúvida, acompanhar as mudanças culturais. Na verdade, a expressão “acompanhar” não expõem a natureza do desafio que está colocado, pois não posiciona estes ambientes de formação na situação de protagonismo que poderiam ter na sociedade em relação à aprendizagem, desenvolvimento cultural e mudança social.

O texto “O desamparo da escola pública” relativo aos resultados do IDEB mostra o descompasso da escola com as demandas sociais e ressalta a questão da modernização e das novas tecnologias: “…a escola pública custa a ser modernizada e a implementar as novas tecnologias do ensino. No todo, ela mantém-se antiquada, desinteressante para o aluno e desamparada pelo poder público”. Este é o quadro geral, apesar de haver alguns projetos e iniciativas que mostram que seria possível avançar.

O problema da ineficiência das práticas de leitura e escrita na escola pública são anteriores ao surgimento do digital e possivelmente foi agravado pelas novas tecnologias, que exigem uma restruturação tecnológica dos ambientes e aprendizagens especializadas dos professores. O estudo “Avaliação das bibliotecas escolares do Brasil” destaca, como uma das evidências da pesquisa realizada, a precariedade da modernização tecnológica da maioria das escolas, onde na maioria das vezes, professores e alunos não tem acesso à internet. O estudo chama a atenção para situação de descompasso entre uma realidade marcada pelas inovações tecnológicas, que exigem atualizações frequentes tanto de equipamentos como de conhecimento e uma outra realidade, aquela da maioria das escolas, onde grande parte dos alunos ainda não se “apropriou inteiramente do código da escrita e da leitura”.

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A matéria do jornal Estado de São Paulo, refere-se a um projeto do FNDE/MEC com a Amazon para disponibilizar livros didáticos digitalizados para os professores do ensino médio da escola pública, que desde 2013 vêm recebendo tablets do Governo Federal. É uma medida muito positiva, pois para que os professores se sintam à vontade para lidar com o digital, precisam utilizá-lo e integrá-lo as suas práticas de aprendizagem pessoal.

Tecnologias digitais na escola pública

Não temos ideia de quando as tecnologias chegarão de forma massiva (como equipamento, serviço de conexão e com metodologias adequadas) aos alunos das escolas públicas no ambiente escolar, mas sabemos que, no cotidiano, estas crianças e jovens, como qualquer um de nós, vivem imersas num mundo de informações e conteúdos cada vez mais digitalizados e de relações constantemente mediadas pelas tecnologias de comunicação e interação em espaços sociais virtualizados. É possível que o período em que passam na escola, em sala de aula, seja o tempo em que estão mais desconectadas e que sejam menos afetadas pela virtualização tecnológica. Quando há internet nas escolas públicas, muitas vezes ela não é livre no ambiente escolar, normalmente está restrita aos espaços administrativos e ao laboratório de informática. Os celulares são proibidos. O ecossistema comunicativo das escolas públicas não é conectado nem conectivo, em grande parte.

De todos os elementos que compõem a problemática da tecnologia nas escolas, as crianças parecem ser os melhores situados para aproveitarem as oportunidades, pois como mostrou o vídeo “O buraco no muro”, havendo oportunidade de acesso e liberdade, a aprendizagem flui com facilidade.


É possível que o descompasso entre a leitura do mundo mediada pelas tecnologias digitais com todas suas características de fluidez (não linear, autonomia nos roteiros de descoberta/navegação, hipermidiática) cujo exercício é social e acontece naturalmente nos processos de interação virtual e a leitura de conteúdos pré-definidos e apresentados por um professor, numa sala de aula, diante de um quadro negro, numa situação disciplinar, seja um dos fatores que torna a escola e a sala de tão entediante atualmente, para o professor e para ao aluno.

No curso “Tecnologias na Aprendizagem/SENAC EAD”, estamos tendo contato com metodologias, como os projetos educativos e a Educomunicação, que são estratégias que poderão renovar a escola, mas é preciso que os professores e os dirigentes educacionais da educação pública, em atividade, sejam permeáveis a estas e outras novas formas de ensino-aprendizagem, abandonando a abordagem bancária e fordista da educação.

Não acontecendo esta permeabilidade da escola pública e a ampliação do grau de experimentação em relação ao ensino-aprendizagem, com incorporação das descobertas da neurociência sobre aprendizagem e cognição, o uso intensivo das tecnologias digitais e a adoção das novas abordagens pedagógicas, a desigualdade no país tenderá a aumentar.

Desigualdade de oportunidades

Segmentos sociais que têm acesso à escola privada e aos ambientes educativos não formais, onde as didáticas focam na liberdade, estímulo à criatividade, experimentação e autonomia, produção colaborativa, protagonismo e empreendedorismo, e têm acesso direto às tecnologias digitais, estarão melhores preparados para acessar as oportunidades de trabalho e colocar-se nos mercados.

O capitalismo informacional tem oportunidades para os que tem domínio da comunicação e desenvolvimento de uma inteligência cada vez mais conectiva e conectada, habilidades sociais para a colaboração e interação intensiva, capacidade de lidar criticamente com os novos meios, além da competência para organizar a torrente de informação que é produzida.

Os dois projetos que foram apresentados como referência para a reflexão (Devorador de livros e Fábrica de poesia), são muito estimulantes para o desenvolvimento da leitura e da escrita. Mas os dois necessitam que a internet esteja disponível na escola e o “Devorador de livros” oferece uma pequena amostra de uso livre, mas é pago. Como eles, há diversos sites, aplicativos e projetos digitais muito estimulantes e apropriados para a exploração e produção de hipertextos. No entanto, o acesso não é universal para a camada estudantil.

Em relação as mudanças nas práticas de leitura e escrita, desde o advento das tecnologias digitais, com o computador pessoal e posteriormente com a Web 2.0, vivemos realmente uma revolução que impacta várias dimensões pessoais e sociais: é cognitiva, amplia e sustenta redes de interação e ecossistemas comunicativos polifônicos. Saímos de um mundo ordenado tipograficamente, lógico, linear, hipotético, dedutivo e passamos para um mundo audiovisual e de sintaxes híbridas, com predominância do sensorial e da percepção. Os códigos são híbridos. A intuição, a afetividade e a imaginação são ativadas, conformando novas formas de inteligências, de subjetividade e de leituras de mundos. São muitos os recursos tecnológicos, o volume disponível de dados, informação e conhecimento é único. A possibilidade de produzir e distribuir de forma autônoma, de expressar-se em textos de variados formatos e em diversificados suportes não tem comparação na história humana.

Hibridismo é um dos conceitos que define nossa época. Desde as técnicas de produção que se servem da bricolagem, da recombinação e da exaptação do que existe nos mundos em que estamos imersos e nos quais interagimos, até às práticas didáticas, tudo é marcado pela mistura, pela mestiçagem. Por exemplo, em nosso curso, que é voltado ao estudo do uso de tecnologias na aprendizagem, as habilidades de leitura tipográfica, a leitura hipertextual, e a escrita linear são igualmente mobilizadas.

Assim, tudo convive em nossas práticas: o mundo tipográfico e a rede de hipertextos, disponíveis para elaboração do conhecimento. De alguma forma, é fabuloso. Lembra um desenho de Escher, lúdico, com muitos imbricamentos e caminhos. Mas, como educadora, não consigo deixar de pensar nos contextos em que as oportunidades anunciadas se atualizam e no desafio de transformar alunos de escolas públicas em interagentes imersos no ciberespaço.

* Texto produzido para a disciplina Produção coletiva de textos impressos e digitais, no curso Tecnologias na aprendizagem / SENAC EAD.

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