Impacto das mudanças tecnológicas na educação

O grande desafio é não naufragar no volume de informações, na rapidez do fluxo e na ilusão da necessidade de inovação tecnológica permanente, como se esta fosse uma necessidade humana e não uma necessidade do sistema capitalista, naturalizada culturalmente. As análises das tendências que relacionam tecnologia com educação/instrução podem ser abordadas como epistemes relacionados a dispositivos do capitalismo imaterial/cognitivo e outros. É importante, fundamental, e diria que urgente,  ser crítico em relação à inovação.

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Uma tendência que é crescente, mas não vi nos artigos indicados pelo curso* em relação ao tema, é a desescolarização, inspirada em pensadores como Ivan Illich e vários outros. Este movimento tem crescido em clusters de classe média, conectadas e que vivem na área de influência das grandes metrópoles. Ou a criação de novo tipos de escolas, como a experiência que está sendo realizada em Cotia, região metropolitana de São Paulo, inspirada na escola da Vila, de Portugal e com a assessoria do educador José Pacheco.

Uma característica atual das conversas sobre a educação é uma unânime crítica à escola como instituição que detêm o conhecimento na sociedade. Esta crise de autoridade está diretamente relacionada ao avanço das tecnologias de interação e comunicação e sua popularização, que possibilitam diariamente a milhões de pessoas no mundo todo, a aprendizagem autodidata e alterdidata (aprender com o outro) sem a mediação direta das instituições de ensino e professores.

A WEB 2.0 e a conectividade intensiva, a interação cada vez mais distribuída das pessoas, o conceito de conhecimento aberto e a ideologia não proprietária estão causando profunda mudança nas formas de convivência e de produção de bens materiais e imateriais em todas as sociedades do mundo e as instituições de educação/instrução também terão que se adaptar às novas configurações culturais e econômicas. No entanto, é possível que as formas conservadoras de ensino não desapareçam totalmente e viveremos em mundos cada vez mais híbridos em termos culturais e tecnológicos. O caráter híbrido dos fenômenos culturais; a recombinação e a exaptação como técnicas de produção; a mobilidade das pessoas e o compartilhamento obsessivo já são características do presente.

No campo da Educação já estamos vivendo sob o impacto de muitas mudanças. Em relação a aprendizagem cada vez mais online, teremos que avançar bastante na percepção da influência do design de interface e como ele configura a interação das pessoas, para que os fluxos sejam cada vez mais desobstruídos. As tutorias e mediações de aprendizagem terão que abandonar práticas de comando-controle e de transmissão de conteúdo e avançar no conhecimento da fenomenologia da interação, conforme os conhecimentos gerados na nova ciência de redes. Por exemplo, o conectivismo já é uma teoria pedagógica que pensa  a aprendizagem em dinâmicas de interação.

Um grande desafio que será enfrentado é o movimento de não propriedade do conhecimento, que afetará a indústria da educação, como afetou a indústria de música e a do jornalismo. Está em curso a necessidade de invenção de uma nova economia para a Educação.

Os MOOCs (Massive Open Online Course) são uma iniciativa ainda imatura. O alto índice de desistência é um sintoma que denuncia que há vários problemas nos modelos que vêm sendo implantados, mas são laboratórios para pensarmos e experimentarmos sobre ensino/aprendizagem online. Muito do  novo paradigma dos negócios educacionais está sendo desenhado nestes experimentos.

A questão da aprendizagem analítica, inspirada no uso das análises de dados e métricas sobre consumidores, com origem na área de marketing, tem a limitação genética de ser uma abordagem quantitativa, que pode contribuir, mas sempre será complementar às abordagens que tratem da complexidade do processo de aprendizagem. As instituições que reduzirem o aprendiz a um consumidor ou cliente não vão liderar.

Vivemos num mundo onde muitos objetos, ambientes e interações podem promover uma situação de aprendizagem. Aplicativos e ferramentas variados e acessíveis possibilitam apropriações e intervenções sobre a realidade e afetam nossa forma de viver o cotidiano e as leituras que fazemos dos mundos em que circulamos. A mobilidade é um dos fatores mais provocadores, pois causa desterritorialização nos coloca em contato com experiências  culturais diversas e, além disso,  torna as relações e os vínculos com pessoas e lugares muito instáveis, gerando novos tipos de sociabilidade.

O papel do professor será cada vez mais a curadoria de roteiros para aprendizagem e a configuração de ambientes de aprendizagem que estimulem a criatividade, a colaboração e a cooperação, o protagonismo e o senso de comunidade.

É importante que nos perguntemos, diante das teorias pedagógicas e das tecnologias, que conceitos de ser humano e de sociedade estão implícitos nas verdades que sustentam. Penso que esta é uma boa pergunta para orientar educadores no fluxo das mudanças.

Um tipo de ambiente de aprendizagem e convivência que pode ensinar muito sobre as tendências da educação no século XXI é o laboratório Hacker. Nestes espaços de hackerismo há uma prática intensiva de cooperação, colaboração, uso comum de recursos, responsabilidade distribuída, espírito de comunidade, compartilhamento de conhecimento e aprendizagem permanente. São plataformas sociais e culturais onde muito do que estamos investigando já está acontecendo.

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* Texto produzido como conclusão do trabalho individual na disciplina Espaços educativos e suas mobilidades / Curso Tecnologias na Aprendizagem /SENAC EAD. Junho 2014

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