Produzir a vida

Uma iniciativa que nasceu de indagações sobre as profundas alterações que vi  acontecerem no mundo do trabalho e na produção cotidiana da existência. Refletir e investigar o cenário contemporâneo do mundo do trabalho e suas tendências foi o que propus ao Instituto CPFL. Os eventos do Café Filosófico aconteceram no mês de abril de 2014,  com a participação de Giuseppe Cocco com o tema A nova composição do trabalho (11.04), Silvio Meira abordando Novas profissões, novas oportunidades ( 23.04) e  Augusto de Franco refletindo sobre  Viver em rede e viver da rede (25.04).

Mundo em transição

A pós modernidade tem entre suas características profundas mudanças no mundo trabalho. Na transição do fordismo (apoiado no paradigma da grande indústria) ao pós-fordismo (fundamentado no paradigma do conhecimento e na produção colaborativa) o trabalho deixou de ser o que era: uma carreira estável, aquelas horas separadas da vida, uma atividade gerida pela competição, uma profissão para sempre. O trabalho imaterial , globalizado e organizado em redes integradas de produção e circulação, emerge e flui na rede social dos cérebros conectados intensivamente pelas tecnologias, produzindo assim novas necessidade e subjetividades.

As mudanças provocam deslocamentos e desarranjos profundos, com impacto nas instituições tradicionalmente ligadas à formação e administração dos trabalhadores, como as educacionais e de treinamento profissional, partidos políticos, sindicatos e na gestão da vida pessoal. As dinâmicas produtivas são caracterizadas pela articulação social de novos fatores estratégicos de atividades imateriais de planejamento, comunicação, marketing, design e a educação (formação).

Segundo Cocco , longe de desaparecer, o trabalho não para de se difundir no espaço e no tempo: nos territórios desenhados pelas redes sociais de cooperação, num tempo definido pela recomposição de tempo de vida e tempo de trabalho.

Vídeo da apresentação de Giuseppe Cocco, em 11 de abril de 2014, no Café Filosófico.

A sociedade atual é um mundo híbrido, onde convivem formas tradicionais e formas avançadas, atualizadas, de produção, circulação e distribuição das mercadorias e da riqueza. A dinâmica da socialização da produção da riqueza e a integração da dimensão comunicacional como interface entre a produção e o consumo são elementos da transformação. A transformação da matéria pelo trabalhador individual (inclusive quando ele continua no chão de fábrica) depende das dinâmicas imateriais: comunicativas, linguísticas, afetivas, ou seja, as atividades da mente e da mão de um trabalhador de carne e osso: o trabalho vivo.

Emprego e empregabilidade: novas profissões

No entanto, apesar da profundidade das mudanças, nada foi totalmente descartado. O ecossistema cultural globalizado atual é um espaço-tempo onde diferentes configurações produtivas coexistem. Assim as contradições são constitutivas dos arranjos e des-arranjos que emergem desta copresença.

Vídeo da apresentação de Sílvio Meira, em 25 de abril, no Café Filosófico

Giuseppe Cocco, em suas investigações sobre as transformações globais do pós-fordismo, destaca que hoje o trabalho envolve a vida como um todo. O sistema de produção precisa mobilizar até a alma do trabalhador: sua capacidade comunicativa, seus afetos, suas redes sociais. O emprego é precário, intermitente, terceirizado, autônomo. No entanto, mesmo quando o trabalho acontece fora da relação de emprego (por exemplo, na circulação, nas redes, no consumo), ele continua sendo regido pelas instituições da sociedade salarial (desde o seguro desemprego até as leis sobre o copyright).

O tipo humano adequado às exigências dos novos tempos é a pessoa de desempenho que incorpora valores da autonomia e da inovação constante. Ele desafia, pesquisa, cria formas de convivência solidária e tem resiliência suficiente para tomar constantemente decisões diante de demandas que surgem e assumir novas responsabilidades. Está em permanente processo de formação, de qualificação e desenvolvimento de suas habilidades com vista a melhorar performance no mercado. Vive conectado, é disponível à interação e suas redes de relação são tratadas como um importante ativo. Tem grande mobilidade, pode trabalhar em qualquer lugar onde seus conhecimentos se façam desejáveis. Segundo Gorz (2005), no capitalismo imaterial, ‘A pessoa é uma empresa’. No lugar da exploração entram a auto exploração e a auto comercialização do ‘Eu S/A’, que rendem lucros às grandes empresas, que são clientes do auto empresário. É um agenciamento permanente da vida e da subjetividade. Nem todos concordam e procuram linhas de fuga, trilhas novas, fissuras onde possam construir formas mais significativas e fraternas de viver.

Novos mundos

A questão central é que tudo acontece em redes tecnológicas internas e externas às organizações. Colaboração e cooperação são mantras. Esta condição material da produção (pessoas autônomas conectadas em redes telemáticas produzindo valor colaborativamente e intensiva circulação de informação) configuram, além do ecossistema de produção no capitalismo cognitivo, as condições de investigação e realização de novas formas de convivência e de organização que procuram escapar do domínio capitalista ou pelo menos subverter suas dinâmicas de apropriação. São novos mundos que emergem e desafiam todos com a necessidade de produção de novas subjetividades que respondam aos desafios e transformações no campo do trabalho e de produção da vida.

Vídeo da apresentação de Augusto de Franco, em 29 de abril de 2014, no Café Filosófico.

Diante das desigualdades e insegurança crescentes provocadas pela globalização das novas formas de exploração, muitos, no mundo todo, resistem a um existência passiva de produção e consumo no automatismo das redes globais. Perguntam-se como configurar outra sociedade, como gerar e sustentar modos alternativos de cooperação e de produção auto organizada das necessidades coletivas. A busca por uma vida significativa para si e para as comunidades em que convivem emerge (possivelmente) como um dos resultados da mobilização intensa da subjetividade conectada.

Assim, a natureza social da produção atual, seu caráter interativo e comunicativo, a intensiva circulação de informação e de conhecimento sobre tudo, ao mesmo tempo que expandem as redes do capitalismo, abrem possibilidades para a exploração e invenção de novas formas de convivência e de organização econômica para os que desejam uma vida significativa para si e para as comunidades em que convivem. O hibridismo existente cria as oportunidades de invenção, que podem ser detectadas nas novas expressões que circulam e indicam os modos inovadores de organização da produção: negócios sociais, empreendedorismo social, inovação aberta, economia da dádiva ou da abundância, prossumidor (consumidor-produtor), cocriação (como tática para a inovação), economia solidária.

Será possível escapar dos automatismos das redes do  capitalismo global?

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